Olha, eu vou ser bem sincera com você: nunca fui de guardar dinheiro. Sei que é feio admitir isso, principalmente pra uma mulher de quarenta e três anos, professora de matemática concursada, que deveria dar o exemplo de planejamento financeiro pros alunos, mas a verdade é que sempre tive um talento muito maior pra gastar do que pra poupar. Minhas amigas chamam isso de “estilo de vida”, minha mãe chama de “falta de juízo”, e eu chamo de “sobrevivência emocional”, porque depois de um dia inteiro resolvendo equação de segundo grau com adolescente que não quer saber de nada, a única coisa que me acalma é comprar um sapato, pedir uma comida diferente ou parcelar uma viagem de fim de semana. Acontece que esse meu jeito meio desregrado me deixou numa situação bem complicada no ano passado, quando o encanamento da cozinha resolveu finalmente se entregar depois de trinta anos de serviço.
Não foi uma coisa súbita, sabe? Foi uma morte lenta e molhada. Primeiro veio um cheiro de mofo atrás do armário da pia, aí um gotejamento que eu resolvi fingir que não existia, depois uma mancha amarela no teto da vizinha de baixo, e finalmente o catastrófico: o cano de ferro, todo enferrujado, simplesmente estourou numa quarta-feira à noite enquanto eu preparava um macarrão. Eu abri a torneira pra lavar a alface, e quando vi, a água jorrava não só pela pia, mas por dentro dos armários, molhando pacotes de arroz, envelopes de tempero, aquele paninho de prato favorito da minha avó que eu guardava há anos por pura saudade. Foi um desespero silencioso, daqueles que você primeiro congela, depois começa a catar toalhas, depois chama o encanador às nove da noite, e por fim senta no chão da sala com uma cerveja quente e aceita que sua vida virou um episódio de programa de reforma.
O encanador veio no dia seguinte, um senhor chamado Seu Moisés, bigode grisalho e cara de quem já viu cada tipo de desgraça hidráulica nessa vida. Ele examinou a cozinha, fez aquele som de “ih, minha filha”, e me entregou o orçamento com a mesma delicadeza de quem entrega um atestado de óbito: onze mil reais. Onze mil. Isso porque ele ia trocar toda a tubulação antiga, refazer o piso da cozinha que já tava todo estufado, e ainda consertar a parede que a umidade tinha corroído. Chorei. Chorei de raiva de mim mesma, de não ter economizado, de ter trocado um carro zero na loja no ano anterior, de ter comprado aquele sofá caríssimo que nem cabia direito na sala. Chorei de cansaço, sabe? Daquele cansaço de trabalhar tanto e nunca ter um colchão de segurança.
Foi então que a vida resolveu me surpreender, e eu juro que não tô inventando isso pra dar uma lição de moral, foi o puro acaso mesmo. Minha aluna mais velha, uma moça de uns vinte e dois anos chamada Letícia, vivia falando de umas paradas de criptomoeda que eu nunca levava a sério. Ela dizia que minha cara era “cara de Dogecoin”, que eu tinha uma “energia Shiba Inu”, e eu só ria sem entender nada. Até que um dia, durante o intervalo, ela me mostrou no celular dela uma plataforma toda colorida, com uns joguinhos que misturavam números, frutas e um cachorro fofinho com olhos arregalados. “Professora, isso aqui é um
Cassino Online Dogecoin”, ela explicou, piscando. “Você só coloca uma quantia pequena em Dogecoin, que é uma moeda que custa quase nada, e gira os rolos. É tipo um passatempo, mas que pode dar uns prêmios bacanas.” Eu olhei com aquele ar de superioridade de quem nunca jogou nem bingo, devolvi o celular, e disse que isso era “coisa de jovem”. Mas no fundo, naquele fundinho mesmo, o orçamento de onze mil reais já tinha feito uma casinha na minha cabeça e se recusava a sair.
Naquela noite, depois de dar aulas online pra três alunos particulares que me pagavam uma miséria, eu estava exausta, deitada na cama com o notebook apoiado na barriga. A enchente na cozinha já tava contida, mas o cheiro de mofo ainda impregnava o apartamento inteiro. Meus gatos, o Bismarck e a Frida, andavam com nojinho de pisar no piso molhado. Respirei fundo, lembrei da Letícia mostrando o celular, e pensei com uma amargura misturada com esperança besta: “vai que”. Pesquisei no Google, cliquei no primeiro link que achei, e me vi diante de um Cassino Online Dogecoin cheio de cores neon, efeitos sonoros animados e uma porção de símbolos que eu não entendia. Criei uma conta em cinco minutos, depositei o equivalente a quarenta reais em Dogecoin que eu já tinha esquecido numa carteira digital que o meu sobrinho me ajudou a abrir no Natal passado, e comecei a fuçar.
Confesso que as primeiras duas horas foram uma completa bagunça. Eu não sabia a diferença entre um multiplicador e uma linha de pagamento, clicava em tudo que era botão, perdia um dinheirinho aqui, ganhava outro ali, e no final de tudo eu tinha uns trinta e dois reais. Uma perda pequena, nada que doesse. Mas aí a Frida, minha gata mais atentada, pulou no teclado e mudou sozinha a aposta pra cinco reais por rodada. Quando percebi, já tinha girado. Meu coração quase parou. A tela fez um barulho metálico estranho, os rolinhos pararam num alinhamento perfeito de três diamantes azuis, e o contador foi de trinta e dois pra cento e quarenta reais em menos de dois segundos. Dei um pulo na cama. O Bismarck, que tava dormindo aos meus pés, me olhou com uma cara de “que loucura é essa, mulher?”. Naquela mesma noite, empolgada com a virada, continuei girando com apostas menores e terminei com duzentos e poucos reais na conta. Uma grana boa, perto do que eu tinha começado, mas ainda um grão de areia perto dos onze mil.
O problema, e aqui vai a parte que todo mundo que já jogou um dia vai entender, é que aquilo vicia de um jeito silencioso. Não vicia o dinheiro, vicio a esperança. No dia seguinte, ao voltar da escola, a primeira coisa que fiz foi abrir o mesmo Cassino Online Dogecoin e tentar repetir a sorte. Coloquei mais quarenta reais. Perdi em quinze minutos. Coloquei mais trinta. Perdi em dez. Minha mão tremia, meu estômago revirava, e uma voz na minha cabeça gritava “para, pelo amor de deus, você tá jogando o dinheiro do conserto”. Mas eu não conseguia. Era como se aquela máquina soubesse meu desespero e se divertisse com ele. Fiquei duas horas nesse ciclo maluco, ganhava um pouco, perdia tudo, até que no final tinha perdido cento e vinte reais. Fechei o navegador com raiva, tirei o pó do meu antigo cofrinho de porquinho, e jurei que nunca mais voltaria. Só que sabe qual é a parte mais doída? Não tinha voltado por vício. Tinha voltado por necessidade, e a necessidade é uma mãe teimosa.
O estalo aconteceu de verdade no domingo, três dias depois. Eu tava na casa da minha mãe, tomando um café da tarde com bolo de fubá, quando ela perguntou sobre a reforma. Minha mãe, Dona Irene, é uma senhora de sessenta e oito anos, viúva, que vive de uma aposentadoria modesta e tem um orgulho ferrado de nunca pedir dinheiro pra ninguém. Ela me olhou com aqueles olhos claros que sempre me desarmam, colocou a mão na minha, e disse: “filha, eu tenho três mil guardados na poupança, é pouco, mas pode pegar”. Eu comecei a chorar na frente do bolo de fubá, um choro feio, soluçado, daqueles que molha o colo. Ela não tinha ideia de que eu tava tentando resolver sozinha, que eu não queria incomodar ninguém, que eu já tinha até tentado um empréstimo no banco e sido recusada por causa do nome sujo. Aquele gesto simples dela, de oferecer o pouco que tinha, me deu um ânimo que nenhuma máquina de caça-níquel jamais vai dar.
Voltei pra casa decidida a tentar mais uma vez, mas dessa vez com estratégia, não com desespero. Pesquisei fóruns, li comentários, aprendi sobre gerenciamento de banca e sobre os horários de menor movimento nos cassinos online. Escolhi uma noite de terça-feira, quando eu sabia que não teria aula no dia seguinte, peguei exatamente oitenta reais que sobraram da minha compra do mês, e entrei na plataforma com uma mentalidade diferente: ia jogar até dobrar ou até zerar, sem exceção. Comecei com apostas mínimas, de cinquenta centavos, só pra sentir o ritmo das máquinas. Passei uma hora nisso, sem ganhar quase nada, mas também sem perder. Aí mudei pra uma máquina específica que um usuário recomendou, um jogo de tema egípcio com escaravelhos e pirâmides, e aumentei a aposta pra dois reais. A máquina demorou, demorou, demorou. Dei dezenas de giros vazios, perdendo uma grana que já me deixava ansiosa, até que finalmente acertou uma combinação média: cento e vinte reais.
Poderia ter parado aí. Mas senti que não era a hora. Diminui a aposta de novo, ganhei uns trocados, aumentei de novo, perdi, aumentei outra vez. A meia-noite já tinha passado, meus olhos ardiam, e minha conta tinha trêscentos e quarenta reais. Aí aconteceu. Eu mudei pra um jogo com tema de frutas, o mais simples que existe, três rolinhos e uma linha de pagamento só, e coloquei cinco reais. A última aposta da noite, eu já tinha decidido. Girei. Quando as três cerejas se alinharam, eu quase não acreditei. O multiplicador era sessenta vezes. Sessenta vezes cinco dá trezentos. Trezentos mais o que eu já tinha dava seiscentos e quarenta reais. Não, pera: seiscentos e quarenta. Eu arregalei os olhos, levantei da cadeira, andei pela sala oito vezes seguidas, e saquei na hora. Não teve nem discussão. Aquele dinheiro, somado aos três mil da minha mãe, ao meu salário do mês e ao que eu ia parcelar no cartão, finalmente fechava a conta.
Na semana seguinte, o Seu Moisés voltou com sua caixa de ferramentas e seu bigode grisalho. A obra durou dez dias. Eu morei no cheiro de tinta, no barulho da britadeira, no pó de cimento que cobria tudo. Mas quando ficou pronto, meu amigo, que cozinha linda. Piso novo, armários reformados, pia inox, azulejos brancos que refletiam a luz da janela. Minha mãe veio visitar, passou a mão na bancada, abriu os armários, e disse com um sorriso de canto: “não sei como você conseguiu, mas ficou melhor do que eu imaginava”. Eu não contei pra ela sobre as madrugadas em claro nos Jogos de Cassino Dogecoin, sobre as apostas, sobre os oitenta reais que viraram seiscentos e quarenta numa jogada de pura sorte e teimosia. Contei que peguei um freela, fiz um bico num cursinho, dei aulas extras. É uma versão mais fácil de explicar. Mas você, que tá lendo isso agora, sabe a verdade. A verdade é que às vezes a gente precisa de uma loucura controlada, de uma noite de risco calculado, de uma pitada de sorte pra lembrar que a vida não é só planejamento e continha no papel. A verdadinha mesmo é que eu tive sorte. Muita sorte. E que não vou testar essa sorte de novo tão cedo, porque reforma de banheiro não tá nos planos, e meu coração, coitado, não aguenta outra adrenalina dessas.